
Referência em cacau cultivado em sistema agroflorestal e maior produtor do fruto no Brasil, o Pará, representado pelos produtores de amêndoa de origem, já vinha cumprindo as exigências da legislação recém-publicada pelo Governo Federal, que estabelece o mínimo de 35% de cacau para produtos gerais e 25% para o chocolate ao leite.
Durante o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, realizado pelo Governo do Estado no final de abril, os visitantes tiveram a oportunidade de degustar e ter acesso aos chocolates com teor de 40% a 90% de cacau.
Entre tantos exemplos, está o chocolate produzido pela Da Cruz Chocolate, única fábrica do segmento localizada na Região Metropolitana de Belém, mais precisamente no bairro do Atalaia, no município de Ananindeua. O chocolate do empreendimento familiar com o menor percentual de cacau é de 56%, como explicou o agrônomo e chocolateiro Flávio Cruz. Ele diz que a nova legislação é boa para o produtor e para o consumidor.
O filho Samuel Cruz, que atua na área comercial, sendo responsável pelas visitas guiadas ao empreendimento, diz que em relação ao trabalho deles, a leis não muda quase nada, pois além do percentual já utilizado pela fábrica, o rótulo contém informações claras ao consumidor.
“O chocolate de verdade tem propriedades importantes para a saúde. Chocolate não é só porcentagem. É origem, é terruá, é fermentação mais bem feita, é respeito ao produtor e sabor real”, disse.
Ao lado do prédio onde está instalada a fábrica, há uma área onde é cultivada parte do cacau utilizado no chocolate produzido pela Da Cruz. O espaço é preservado e enriquecido de espécies florestais, livre de agrotóxico, como garante a família dona do empreendimento. A maior parte da amêndoa utilizada no chocolate da Da Cruz, como explica a diretora-geral da fábrica, Chiara Cruz, é adquirida de produtores que trabalham com os mesmos cuidados adotados pela fábrica.
“Trabalhamos com chocolate de origem. Temos uma pequena plantação onde fica a nossa fábrica que a gente faz chocolate de lá. Mas, a maior quantidade a gente compra de produtores que tratam a amêndoa da forma como a gente trabalha”, diz.
Qualidade superior- O teor e a qualidade do chocolate fino fabricado com amêndoa produzida no Pará já rendeu ao Estado premiações nacionais e internacionais, como lembrou o secretário de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz. Ele reiterou que o Estado já utiliza o cacau dentro do que a lei estabelece e que para o produtor local, em termos de exigências de fabricação para cumprimento da legislação, nada mudará, já que o segmento trabalha com o que a lei determina. O impacto mesmo, que é bastante positivo, como lembrou o gestor, será na necessidade de maior aquisição de amêndoas produzidas pelo cacauicultor, sobretudo o que trabalha em regime familiar.
“A legislação trouxe boas expectativas aos produtores do Pará, pois quanto maior o consumo, automaticamente se tem um percentual melhor na participação do lucro desse chocolate vendido. Então favorece ao consumidor e ao pequeno produtor”, observou.
O gestor lembra que o consumidor do chocolate exige cada vez mais um produto de melhor qualidade que passa pela sua origem.
“Muita gente hoje faz opção de cacau com porcentagem que varia de 40% a 80%. Essa legislação é boa para o produtor e ao consumidor, que tem no chocolate um alimento formidável com os seus efeitos organolépticos, que proporcionam ao cidadão maior capacidade de comunicação e atividade cerebral. Quando vai a 35% a quantidade de cacau, se oferece ao consumidor melhor qualidade nesse alimento”, disse.
Autenticidade- O coordenador do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA) - instalado no Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, da Universidade Federal do Pará (UFPA), professor Jesus Nazareno Souza, observa que a nova lei atinge mais diretamente a indústria do que o chocolateiro, que normalmente já trabalha com o chocolate fino.
“A indústria vai ter que usar mais chocolate e então com isso, para o produtor será melhor, pois haverá necessidade de comprar mais para poder colocar mais no chocolate. E não vai ter aquele negócio de sabor chocolate; terão que colocar de fato cacau para pode ser chamado de chocolate”, ressalta.
O coordenador do Procacau da Sedap, engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, que coordenou o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, também acredita nos impactos positivos da legislação.
“Ela beneficia o produtor de amêndoa, pois o produtor de chocolate terá que comprar mais amêndoas para garantir os 35% mínimos. Ele comprava menos e agora terá que comprar mais quantidade. Isso beneficia e muito o produtor de amêndoa do Pará e do Brasil como um todo”.
Ele reiterou que os produtores artesanais sempre cumpriram com essas orientações que passaram a compor a Lei. “Essa legislação só serve para aquelas grandes marcas que usam pouco chocolate nos seus produtos. O nosso chocolate artesanal produzindo no Pará não usa menos de 35%".
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