
A importância dos manguezais para a agenda climática, a segurança alimentar, a proteção costeira e o fortalecimento da bioeconomia amazônica foram destacadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas) durante o painel “Bioeconomia na Costa Amazônica: Integração multissetorial e governança climática”, realizado dentro da programação do Bioeconomy Amazon Summit 2026.
Na programação desta quinta-feira (14), o secretário adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental, Rodolpho Zahluth Bastos, ressaltou que a Amazônia costeira precisa ocupar lugar mais estratégico nas discussões sobre mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
“Os manguezais, apesar da grande importância que eles têm para o estado do Pará e para os estados amazônicos, talvez não sejam um ecossistema olhado com a importância devida dentro do debate das mudanças climáticas. O olhar das organizações e dos países está muito voltado para o ambiente de floresta, regularização ambiental, agricultura familiar e combate às irregularidades ambientais em áreas de desmatamento. Mas nós temos um ecossistema de grande relevância no estado do Pará, que integra a maior faixa contínua de manguezais do planeta, entre o Amapá e o Maranhão, passando pelo Pará e pelo Marajó, com várias populações e comunidades tradicionais que habitam esse ecossistema, desenvolvendo atividades econômicas, gerando renda e mantendo a biodiversidade”, afirmou Rodolpho Zahluth.
Durante o painel, Rodolpho destacou que os manguezais devem ser compreendidos como territórios de conservação da biodiversidade, proteção climática e valorização dos modos de vida tradicionais. Segundo ele, esse ecossistema funciona como barreira natural contra processos erosivos e efeitos do aumento do nível do mar, além de ser berçário para a reprodução da biodiversidade marinha e ter alta capacidade de armazenamento de carbono azul.
“Eu não vejo o território manguezal como uma área com olhar de regularidade ambiental. Vejo muito mais como um território de conservação da biodiversidade e desses modos de vida tradicionais. O Pará tem atuado buscando apoiar essas comunidades porque entende que é a partir delas que vamos promover a manutenção e a conservação da biodiversidade costeira”, acrescentou.
Para o secretário adjunto, o desafio é avançar da gestão participativa para a cogestão dos territórios, envolvendo Estado, municípios, ICMBio, associações comunitárias, organizações da sociedade civil e instituições de pesquisa.
“Temos dentro da zona costeira a gestão primária do ICMBio, por meio das reservas extrativistas que compõem esse território, mas o papel dos Estados e municípios nessa cogestão com as associações é fundamental. Essa união e esse alinhamento podem atingir um objetivo de conservação cada vez mais importante”, afirmou.
Também participante do painel, o chefe da região costeira do ICMBio, William Ricardo, reforçou o protagonismo do Pará na gestão de reservas extrativistas costeiras e a importância da gestão compartilhada com as populações tradicionais.
“O estado do Pará tem protagonismo nessa categoria de unidade de conservação, que é a reserva extrativista. Nosso litoral tem uma quantidade expressiva de unidades de conservação dessa categoria, principalmente em áreas de manguezais, restingas e algumas matas ciliares. A gestão compartilhada é uma premissa dessa categoria, que é voltada para a população tradicional. Então, não faz sentido o ICMBio fazer a gestão sem ter também o aval das demandas das comunidades”, destacou.
Entre as iniciativas apresentadas pela Semas estão o apoio às mulheres erveiras de Marapanim, o projeto Aquavila, em Curuçá, e o acordo de pesca voltado ao caranguejo, considerado o 17º acordo de pesca do Pará e o primeiro com foco nesse recurso da zona costeira. No caso da Aquavila, o apoio incluiu embarcação, motor, travesseiros de ostras e a previsão de implantação de uma biofábrica comunitária. Para João Galvão, líder comunitário do projeto, a experiência mostra que a conservação pode caminhar junto com geração de renda.
“Quando a comunidade recebe apoio para produzir de forma organizada, ela consegue gerar renda sem abrir mão da conservação. A ostreicultura mostra que o manguezal vivo é também fonte de trabalho, alimento e futuro para as famílias. O projeto Aquavila nasceu dentro da comunidade e cresceu com essa parceria, fortalecendo os ostreicultores, valorizando o conhecimento local e mostrando que a bioeconomia costeira pode ser um caminho real para melhorar a vida das pessoas e proteger o território”, afirmou.
O painel foi conduzido por Maura Sousa, gerente sênior da Rare Brasil e contou ainda com a participação de Marcus Fernandes, professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), lotado no Campus de Bragança, coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA) e do programa de pesquisa ambiental do projeto Mangues da Amazônia.
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